Uma crônica de natal
candida 29/12/2016 08:45
Christmas presents piled underneath a christmas tree. Uma crônica de natal Cândida Albernaz Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel. Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza. Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes. Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos. Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância.  Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão. No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou: - Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo. Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta. Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo. Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija. Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também. De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco. Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios. Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós. - Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto. Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum. - Podem descer. Está tudo aqui. E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse. Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café. O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela. Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.  

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS