Se todos fôssemos no mundo iguais a você
Mariana Luiza - Atualizado em 20/12/2017 11:53
A primeira vez que eu me apaixonei de verdade foi por um menino que eu vi na praia, numa tarde ensolarada de um domingo de verão. Ele era surfista e passou por mim carregando uma prancha de bodyboard enquanto eu esturricava sob o sol sem nem um pingo de filtro solar. No segundo seguinte eu já estava apaixonada. Não sabia onde ele morava, nem quantos anos ele tinha. Não sabia nem o seu nome, mas eu o amava e só esse amor já me bastou para o resto do dia. Alguns meses se passaram e eu revi o surfista plantado num ponto de ônibus a esperar. Eu passei de carro e meu pai dirigia tão rápido que mal deu tempo de pensar em lhe oferecer uma carona. Também, naquela época, me faltava tal audácia. Meu pai me levava pro curso de inglês, era o meu primeiro dia de aula e eu que já pensava em ser escritora, mentalizei a cena da carona durante todo o trajeto para o curso. Cheguei até a pensar que ele estivesse indo para o mesmo lugar que eu. Quem sabe não era meu colega de turma? Sentei na primeira fila, abri o caderno e o livro. Quando um quarto da aula já tinha se passado eis que a porta se abriu e quem entrou? Ele mesmo. O surfista, que não posso revelar o nome por questões éticas. O fato é que se antes, eu já achava que ele era o homem da minha vida, agora então, eu tinha certeza. Meu inglês que nunca foi bom ficou pior ainda. Eu não concentrava nas aulas e tinha vergonha de pronunciar as palavras erroneamente. Daí, entrava muda e saía calada. O surfista me intimidava pela sua presença e pelo impecável inglês californiano. Eu ia de mal a pior no curso. Até hoje tenho certo bloqueio para a língua. Estudamos por longos 8 semestres. Ele se formou com louvor e eu como se fosse uma aluna mediana. Justo eu que sempre fui nerd. Ao longo desses oito semestres, eu me aproximei um pouco, mas nunca tive coragem de me declarar. Nesse meio tempo, ele me convidou para surfar, eu planejei uma festa surpresa num dia de aula para celebrar o seu aniversário e ele teve um namoro relâmpago com uma das minhas melhores amiga da época. Ela, claro, não fazia idéia do amor que só eu sentia e ninguém mais sabia. Levei dez anos pra beijá-lo na boca. Mas aí, já não era mais amor, já não era mais platônico e eu não era mais a mesma menina que acreditava na eternidade de um sentimento. Beijei por curiosidade e tesão mesmo e contei pra ele do amor platônico que eu senti no passado. Ele achou graça, eu também e nós ficamos amigos. E eu nunca mais o vi desde então, mas até hoje eu tenho as boas vibrações que este amor me trouxe. Hoje comemora-se o centenário de Vinícius de Moraes, o homem que amou eternamente todas as mulheres que se relacionou. Com a mesma intensidade, com a mesma entrega e sem medo do inevitável - até para os mais precavidos - sofrimento do fim.  Há quem diga que Vinícius era um mulherengo, um inconsequente. "Como pode um homem amar tantas vezes à tantas mulheres?". Há quem pense que ao contrário de um amante intenso, Vinícius era um sem vergonha, um colecionador de corações partidos. Afinal, "O amor verdadeiro só acontece uma vez." Eu acho que Vinícius era apenas o portador de um coração imaturo. Um coração que não aprende com o sofrimento de experiências anteriores, que ingenuamente repete sempre a mesma história sem guardar rancor, remorso ou arrependimento.  Que se apaixona, se joga na relação como como se aquela fosse a primeira. Um coração de criança esperta, que sabe bem que não se sai imune nem da vida nem do amor. Que bom que existiu um Vinícius porque os corações maduros são chatos demais e não têm boas histórias pra contar.  
Amor - Vinícius de Moares
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos,amor, tomar thé na Cavé com madame Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.

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