Rain drops keep falling on my head, e eu amo isso...
Mariana Luiza 18/12/2017 18:05 - Atualizado em 18/12/2017 18:31
Durante boa parte da minha infância, eu dividi o quarto de dormir com a minha avó materna. As camas eram colocadas contra a parede. Minha avó na parede esquerda, eu na direita e entre nós, a janela gradeada. Antes de deitar, todas as noites, ficávamos as duas, por alguns minutos, observando a lua. Dependendo da época do ano, ela aparecia bem de frente à janela, exatamente na fresta entre os dois prédios da rua de trás. Mas havia um período, não sei se inverno ou verão, em que podíamos ver apenas a luz da lua cheia refletida na parede da cama da minha avó. Era nessa época, que nós nos debruçávamos na grade chamando pela lua na esperança dela nos libertar da monotonia das noites tijucanas.
"Lua, oh Lua... minha avó cantava". Eu me sentava com as pernas por entre as grades de alumínio contorcendo meu corpo e esticando ao máximo meu pescoço para alcançar a lua com os olhos.
Passados quase 25 anos, eu e minha avó ainda fazemos o mesmo ritual. Já não dividimos o quarto, as janelas não tem mais grades e o chamar pela lua não me faz o mesmo sentido que fizera na minha infância. Mas onde quer que estejamos, sempre quando anoitece olhamos a leste a procura da lua. E se é dia e há nuvens, desvendamos suas formas e intenções. E se chove, procuramos uma janela para ouvir o som do choro do céu. Se é alegre, se é triste. Qual música a garoa toca? 
Se o dia é branco pensamos no azul da melancolia e no que se pode cair daquele céu contínuo, sem intervalo nem espaços de luz vazante. Disco voador? Pipa perdida? sacolas plásticas de super mercado?
Se o dia é azulado de sol quente, sem nuvens, rezamos pelo cinza refrescante e para que caia algo além dos pára quedas.
E sempre quando faz sol, quando a lua nasce, quando o dia está nublado ou quando chove, eu tenho lembranças da minha avó. Do cheiro das primeiras gotas de chuva caindo no calçamento quente e evaporando até a minha janela. Do dia em que eu e ela voltámos a pé da escola, estava quente, céu limpo, mas no meio da caminhada, que não durava mais de 20 minutos, o céu enegreceu e chorou por todo o caminho restante, encharcando nossas roupas e minha mochila. Naquela tarde, chegamos em casa ensopadas, mas antes de entrar no prédio, minha avó sugeriu que eu abrisse a a boca o máximo que eu pudesse, colocasse a língua para fora para beber o choro do céu. Eu me surpreendi porque as lágrimas não eram salgadas e fiquei pensando se quem bebe chuva ácida, daquelas que caem no Japão, precisa tomar um antiácido logo em seguida.
O céu me traz memórias dos cinco sentidos e do que me faz mais sentido na vida: o amor (da minha avó).

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