Palavras de João
Alexandre Bastos 18/08/2012 20:06

palavra de joão

"Vejo que a cada dia que passa aumenta o número de pessoas no mundo e diminui o amor e o número de ideias. As pessoas destroem e não constroem. Dizem que as minhas pinturas não valem de nada, mas sempre serei uma gotinha tentando apagar o incêndio”, essas foram as palavras de João Rocha, um senhor que morava no Parque Aldeia e pintava nas paredes da sua casa diversas mensagens contra o desmatamento, o descaso com os idosos e a falta de projetos para o desenvolvimento de Campos.

Fiz uma matéria com o “pajé” João em 2005 e confesso que as suas palavras continuam em minha mente. De lá pra cá, conversei com políticos, empresários, médicos, advogados, escritores e jornalistas. Mas nada se compara aquela simplicidade de João, um pedreiro aposentado que aprendeu a ler e a escrever sozinho. João deixa qualquer um emocionado quando ensina que ler a natureza é tão importante quanto as palavras. “Os homens que se acham civilizados e não conseguem enxergar que as coisas simples são as mais profundas. Eu prefiro admirar o que podemos ler ao estudar a natureza. Isso é infinito”, diz João.

Enquanto caminhávamos pelo quintal de sua casa, João disse, apontando para o chão: “Essas formiguinhas podem nos ensinar muito. Veja como são organizadas. Bem diferente dos seres humanos que escravizam e matam uns aos outros”. E João também falou sobre a nossa pobre cidade rica. “Campos é uma cidade que tem tudo para dar certo. Em uma pintura eu coloco a cidade como um grande cemitério de usinas falidas. O problema é que existem muitos homens em Campos que posam de machos e sabichões. Porém, na hora de reivindicar e transformar seus planos em ações, eles nem saem de casa”, desabafou. E como tudo na vida de João é simples, com o amor não podia ser diferente. Ele conheceu a sua esposa Teresa, de descendência italiana, no início da década de 60. Segundo João, o feijão da Teresa foi o primeiro passo para selar a união. “Namoramos apenas 15 dias. Um dia eu pedi pra ela fazer um feijão na minha casa. Foi fazer o feijão e ficou até hoje. Casei com o primeiro e único amor da minha vida”, disse João, provocando o sorriso encabulado da simpática Dona Teresa.

Naquele dia, entrei na casa de João pensando de uma maneira e, ao sair, já havia deixado um monte de valores e supostas certezas pelo caminho. Os exemplos de João eram simples: amar a natureza e amar o próximo, não fazer com os outros o que não gostaria que fosse feito com você e agradecer pelo que temos ao invés de lamentar pelo que não temos.  Para se tornar uma gotinha como o “pajé” João, basta se manifestar com franqueza, abraçar a simplicidade, reduzir o egoísmo e entender que é por meio do afeto que nos tornamos humanos e capazes de conviver em harmonia. João me fez entender que o bem que fazemos apenas por nós mesmos, morre conosco. Mas os exemplos que deixamos ajudando o próximo e preservando a natureza, esses são imortais.

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