30!
Mariana Luiza 27/06/2017 17:41 - Atualizado em 18/12/2017 18:18
Parabéns!
Parabéns!
Em Janeiro deste ano, li uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna com o título Fazer 30 anos. Sant’Anna começava o texto contando que naquela semana, quatro conhecidos entrariam na fase balzaquiana. Todos eles estavam extremamente preocupados com isso. No dia 17 do mês passado, foi a minha vez de celebrar os 30 anos e sentir a tal gravidade no falar que Sant’Anna escreveu. Quase todos os amigos e conhecidos que encontrei naquela semana, comentavam com pesar na voz sobre o fardo da passagem de ano. “Você vai ver, é uma mudança e tanto. Você dorme com 29 e acorda bem diferente no dia seguinte”.
Eu não sentia nada tão significativo assim. Na verdade, até poucos dias antes da celebração, não dava a mínima para opiniões sobre o assunto. Achava que fazer 30 anos era o mesmo que celebrar 29 ou 28. Apenas mais um dia para comemorar, mais um ano de vida. Esse discurso desencanado mudou no exato momento em que ao me olhar no espelho, às vésperas do meu aniversário, encontrei um fio de cabelo branco bem perto da testa. Aquele não era o primeiro. Já havia aparecido uns poucos outros, alguns anos antes.
Mas a diferença é que os fios anteriores foram encontrados na parte traseira da cabeça e por um cabeleireiro que cortava meu cabelo. Pode parecer um pouco dramático tudo isso que estou narrando, mas só quem já tem cabelos brancos entende a problemática de descobrir por si só, um fio branco NA TESTA. É uma invasão de privacidade sem tamanho. Corri imediatamente para o salão e eliminei o inimigo que poderia arruinar a minha entrada triunfal na casa dos 30. E quando acreditava ter vencido um princípio de crise, fui novamente desafiada pelo espelho do banheiro. No dia 17 de agosto, enquanto passava filtro solar no rosto percebi uma leve linha, ainda tímida surgindo entre as sobrancelhas. Não tem jeito. Pensei. Estou ficando velha. Naquele instante, a crise dos 30 que eu acreditava estar imune, surgiu como um raio emergindo do reflexo da ruga recém nascida direto para lobo frontal do cérebro. Comecei a pensar em todos os comentários e pressões sociais que havia ouvido durante as semanas que anteciparam ao dia 17.
A sociedade espera que você chegue aos trinta anos casada, com pelo menos um filho, e intenções de encomendar o segundo. Sua carreira deverá estar consolidada e você precisará ter ao menos entrado num financiamento para a compra da casa própria. E quando você tem o "agravante" de ter nascido mulher, ainda temos o peso de realizar tudo isso exibindo cabelos lindamente coloridos e botox para esticar as rugas. Eu não tinha e não queria ter, nenhum dos requisitos merecedores para o upgrade na idade. E embora me preocupasse com os cabelos brancos e as rugas, sabia que demasiada preocupação só ajudaria a fortalecer o estereótipo feminino da mulher extremamente objetificada. Eu estava longe, bem longe do que a sociedade esperava de mim aos 30 anos e mesmo sem "merecer", me tornei uma balzaquiana. Sempre ouvi que fazer 30 anos era bem diferente de fazer 15, 18 ou 21. Uma tia de Belo Horizonte dizia: "aos quinze você é apresentada a sociedade. Aos dezoito é introduzida ao mundo das quatro ou duas rodas. Aos 21, as verdadeiras responsabilidades se apresentam", mas é aos 30 que a sociedade a qual, segundo a lógica da minha tia, você foi introduzida há 15 anos, começa a te cobrar uma série de realizações e expectativas. E é por isso, que muita gente pira! A minha fulgaz crise dos 30 durou bem menos que um minuto. O tempo que usei para espalhar o filtro solar. Embora estivesse me tornando uma trintona naquele dia, não me sentia uma velha frustrada por não ter realizado nenhuma das expectativas alheias. Na verdade, eu estava muito feliz com as minhas realizações e desejos. O que me salvou do desespero foi relembrar o texto de Sant’Anna. O autor concorda que os 30 anos são uma idade de um início de maturidade. Ele também espera que, aos trinta anos, já se tenha tido filhos, marido casa própria e carreira próspera. Só que a diferença é que para o cronista, há quem faz 30 anos aos 30, há quem faz aos 40, há quem morra sem nunca ter feito trinta anos (espero ser este o meu caso). A idade da realização, assim como a sociedade a conceitua, é muito relativa. As realizações, assim como a queremos, também é bem relativa. O que não se pode, é deixar-se levar pelas expectativas alheias e esquecer-se das próprias. A velhice não chega necessariamente aos 30 anos, nem aos 70 anos. Para muitas pessoas, ela vêm bem antes. Foi aí que ainda espalhando o filtro solar e brigando com a ruguinha recém nascida eu pensei: É bem provável que este cabelo branco já estivesse aí faz tempo, assim como a ruga. E eu ainda me considerava jovem, sem tê-las visto. Foram as expectativas alheias que me fizeram vê-las só agora. Menos mal.

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